quando é que (te) mudas?

Para mudar de sítio é preciso ter picos no pé, e ás vezes nem isso é suficientemente suficiente para nos arrancar do sofá, do computador, da cama ou da inércia! Quando falamos de Saúde, quem está mal nem sempre (se) muda, quem está cansado nem sempre tira férias. Que o digam os últimos dados de 2009 do Observatório Nacional de Saúde resultantes de levantamento efetuado até 2007:

  • Estima-se que o sedentarismo seja causador de um milhão e 900 mil mortes a nível mundial. É também a causa de 10-16% do cancro da mama, cólon e reto, bem como de diabetes mellitus e de cerca de 22% da doença cardíaca isquémica.
  • O risco de se ter uma doença cardiovascular aumenta 1,5 vezes nos indivíduos que não seguem as recomendações mínimas para atividade física.
  • O stress afeta 40 milhões de pessoas na União Europeia sendo que se prevê que 25% dos trabalhadores portugueses venham a desenvolver um problema de sofrimento/incapacidade mental no próximo ano.
  • Em 2005, 15,2% dos residentes adultos em Portugal eram obesos.
  • A proporção de adultos com excesso de peso era em 2005 de 35,7%, correspondendo 17,1% a excesso de peso de grau I e 18,6% a excesso de peso de grau II.
  • …a doença crónica mais frequente é a tensão arterial alta, tendo sido referida por 19,8% de residentes em Portugal.

……..e poderia continuar a torturar o leitor com números. Posto assim a cru, deveriam convencer qualquer um a dar uma caminhada e/ou a comer sopa todos os dias! e apenas com isto, evitaríamos a maior parte destas atrocidades!….mas será? Será que podemos de facto desempenhar um papel ativo na promoção da nossa Saúde e bem+estar? sim. as diretrizes são claras: promover políticas de Saúde Pública que se traduzam na proliferação de condições e contextos favoráveis à adesão de atividade física como são exemplo as ciclovias, os paredões, as piscinas municipais, os ginásios ao ar livre, as maratonas e eventos diversos abertos à comunidade. Que não nos falte o “ONDE“….Ainda assim…

Os investigadores sabem que os comportamentos de saúde podem ser alterados. Sabem “COMO“, e também sabem que as mudanças não acontecem todas de uma vez mas sim por fases, e que cada individuo se encontra numa determinada fase em determinado momento sobre determinado aspeto da sua relativa saúde.

Dr. James Prochaska psicólogo e Director da Head Promotion Partnership na Universidade de Rhode Island, defende haver mais ansiedade à volta da questão da mudança do que realmente necessita haver. No seu livro Changing for Good, Dr. Prochaska escreve que “Lidar conscientemente com a mudança por fases … torna mais fácil a aplicação de estratégias próprias na altura devida.” Convenhamos que isto envolve reconhecer primeiramente as circunstâncias e prioridades do individuo.

Com seus colegas desenvolveu o Modelo Transteórico para a mudança, uma ideia nascida nos anos 70 como resultado de uma investigação com fumadores. Inicialmente o modelo constava de 5 fases relacionadas com comportamentos de saúde – da pré-contemplação à manutenção do comportamento. Mais recentemente foi acrescentada a fase de relapse ou recaída, para reveses após 6 meses. Vejamos:

1 – Pré-contemplação – “nem sequer penso nisso” ou “não preciso de férias”

“Nunca pratiquei exercício físico, e nem quero começar agora.” Nesta fase não é ponderada qualquer alteração por não ser considerada prioritária para o individuo. Aqui de nada servirá insistir pelo facto do individuo nem sequer reconhecer que a mudança é necessária. Será como tentar entrar por uma porta trancada. Em vez de sensibilizar, insistir acaba por provocar ainda maior apetência pelo não comportamento. O melhor exemplo continua a ser o dos fumadores que negam a necessidade de deixar de fumar.

Empatia e aceitação são as melhores estratégias, despertar consciências ao falar de consequências através do aviso do médico de família acerca dos riscos de saúde que corre quem não pratica uma actividade física regular. valorize comportamentos positivos já existentes.

2 – Contemplação – e se eu fosse de férias?…

Passar da 1ª para a 2ª fase pode ser despoletado por uma conversa de café, um aniversário, ou por entre a “culpa” da Consoada e os desejos do Ano Novo. Pode ser silenciosa ou partilhada, repentina ou demorada. O indivíduo reconhece que precisa de uma mudança e começa a ponderá-la juntamente com os seus benefícios. Por exemplo, associado ao abandono do tabaco estão não só benefícios físicos mas financeiros.

Esta fase pode ser pontuada de alguma ambivalência e se o individuo partilhar as suas dúvidas sobre o que fazer, como fazer, e sobre a sua capacidade para, obterá determinado feedback. Se este for adequado e devidamente fornecido, a evolução será positiva. Se o feedback for desadequado e pouco encorajador, a mudança até então ponderada recairá no esquecimento.

Para resultar, é determinante clarificar o “PARA QUE?” da contemplação. o que me leva a ponderar esta mudança agora? o que a torna relevante? qual é o seu significado? o que implica deixar tudo como está? e quanto mais consistentes foram as respostas, mais consistente e duradoura será a mudança.

3- Preparação – ” o que é preciso levar?…”

“A maior parte das pessoas que estão nesta fase planeiam entrar em acção dentro de um mês”, diz Dr: Prochaska. “ Pensam mais nos prós do novo comportamento do que nos contras dos antigos”. Não só já pensaram no assunto, como já deram passos nesse sentido. A duração desta fase pode estar relacionada com timings adequados ou não, reunir os recursos necessários ou esperar que a mudança aconteça sem fazer nada!

Aqui é crucial planear rigorosamente e preparar a “mochila para a caminhada”, ou “a mala para as férias”. É comum sabermos o tempo que irá durar, as probabilidades meteorológicas, os contextos potencialmente desconhecidos, as atividades que iremos/queremos desenvolver, é frequente pensar ” para o caso de…”, irmos munidos do que antecipamos vir a precisar e levamos um numero de telefone para as emergências! No contexto da mudança comportamental passa-se algo muito semelhante, definimos prazos, recolhemos informação sobre como perder peso, procuramos grupos de pares, informamo-nos sobre outros que foram bem-sucedidos, rodeamo-nos de pessoas positivas, etc e respondemos ás nossas próprias perguntas: O que é que se posso antecipar? o que me vai fazer falta em determinado momento? o que é essencial para a mim?  a qualidade das respostas será determinante para uma viagem descansada e confortável. Concorda?

4 – Ação – ou a hora de embarcar

repito: A qualidade das respostas anteriores é determinante para que se inicie uma viagem descansada e confortável. Devem proporcionar sentimentos de confiança, otimismo e consequentemente auto-eficácia – a perceção de que sou capaz de. Encontra-se consonância entre o destino escolhido (mudança), o seu significado e os valores individuais.

Por vezes há intempéries, daquelas que levam a abortar a viagem – o conhecido caso das dietas- em que preparamos uma mochila na noite anterior e por isso está vazia de compromisso, ou alguém a fez por nós e encheu de sapatos quando precisavamos mesmo era de uns chinelos. Não é então por aqui que falhamos quando falhamos! É antes mesmo de nos termos feito à estrada, é virmos despreparados ou encararmos a ação como pseudo-tentativadequalquercoisa “vou tentar” ou “vou experimentar” e “se não der olha”, ” volto à estaca 1 e quem sabe pró ano”………. Pelo contrário, se a mala tiver sido bem preparada, nada deverá faltar! Compete apenas ao individuo, definir a sua velocidade de cruzeiro para passar à fase seguinte.

5 – Manutenção – ou a bendita velocidade de cruzeiro

Nesta fase, o sujeito fez mudanças definitivas, adotou hábitos saudáveis, já verificou benefícios e já comemorou vitórias, pode ter percebido que afinal não queria perder 10 kg mas sim 10 cms de cintura e está feliz por essa dupla conquista.

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Conclusões

Se sente dificuldade em motivar-se para o exercício ou para qualquer outro comportamento relacionado com a promoção da sua Saude, talvez seja insuficiente ouvir ou dizer “Just do it”!. Pode funcionar numa fase inicial, mas terá de ter criado as suas estratégias para se manter no caminho com a motivação suficiente. entenda-se, extra. Hoje temos toda a informação necessária para a fazer escolhas saudáveis.“O QUE” fazer não representa portanto um problema. Encare o PARA QUÊ” da sua mudança como derradeiro desafio, porque é seu e por isso não é fácil. Pare de se enganar, dê os passos na ordem certa e no tempo da sua intuição… e vá de férias porque se calhar, já precisa!

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